Comentário da lição da Escola Sabatina do 3º Trimestre de 2006

 

O EVANGELHO, 1844 E O JUÍZO

 

 

RESPOSTAS A CRÍTICAS E OBJEÇÕES - 2

 

 

Tenho recebido muitas críticas quanto ao fato de crer e defender que o Chifre Pequeno de Daniel 8 surgiu dos “quatro ventos da terra” e não dos “quatro chifres do bode”.

 

A Bíblia revela:

 

O bode tornou-se muito grande, mas no auge da sua força o seu grande chifre foi quebrado, e em seu lugar cresceram quatro chifres enormes, na direção dos quatro ventos da terra. De um deles saiu um pequeno chifre, que logo cresceu em poder na direção do sul, do leste e da Terra Magnífica.” Dan. 8:8 e 9.

 

As três razões que tenho apresentado como evidências de que o Chifre Pequeno surge dos “quatro ventos do céu” são:

 

1) No hebraico o verso 9 não diz: “de um dos quatros chifres”, mas diz: “de um deles”.  Imediatamente antecedendo a frase onde lemos a palavra “deles” está a expressão “quatro ventos do céu”, sendo assim muito mais natural relacionar a palavra “deles” com o seu antecedente imediato (de um dos quatro ventos do céu). Para entendermos como “de um dos quatro chifres” precisamos forçar a relação da palavra “deles” com os “quatro chifres”.

 

2) Na gramática hebraica a palavra “chifre” (qeren) do verso 8 é uma palavra feminina, e a palavra “ventos” (ruach) pode ser tanto masculina como feminina. Como o pronome pessoal “eles” (de + eles = deles) deve concordar com o substantivo que o antecede, este pronome deveria ser feminino caso ele realmente se referisse aos chifres. Porém, o que acontece é que na língua hebraica o “deles” do verso 9 é uma palavra masculina, sendo completamente inviável que ela esteja relacionada com a palavra chifres. O correto é a palavra masculina “deles” do verso 9 estar relacionada com a palavra “vento” que pode ser tanto masculina como feminina.

 

3) A menção do crescimento do Chifre Pequeno em direção a pontos cardeais (sul e leste), pode ser um reforço adicional ao vínculo que queremos estabelecer dele com os quatro “ventos do céu”, ou quatro cantos da terra (comparar com Ezequiel 37:9).

 

Em uma análise bem imparcial, devo admitir que a razão nº.1 não é tão forte assim, pois sua argumentação não é decisiva para determinar se o pronome “deles” (do verso 9) refere-se aos “quatro chifres” ou aos “quatro ventos” (do verso 8). Por exemplo, alguém poderia dizer:

 

“Numa determinada hora da noite, eis que quatro ratos surgem dos quatro buracos da casa. De um deles exala um grande mau cheiro.”

 

Somente por aquilo que está escrito acima não poderíamos determinar com absoluta precisão se o mau cheiro é proveniente de um dos quatro buracos da casa ou de um dos quatro ratos. Posso até argumentar que na estrutura do texto a palavra “deles” vem imediatamente após a expressão “buracos da casa”, mas isto não é uma prova irrefutável, pois ainda assim teríamos que contar com a possibilidade do autor ter a intenção de referir-se a “deles” como a um dos “quatro ratos”.

 

Porém, o argumento nº.2 tem um peso bem mais significativo. Se o pronome “deles” (do verso 9) é realmente masculino e a palavra “chifres” (do verso 8) é feminina, como afirmam os gramáticos da língua hebraica, então gramaticalmente falando fica muito estranho dizer que o anjo estava referindo-se aos “chifres”. Para aceitarmos tal hipótese teríamos que admitir que Daniel cometeu um erro de concordância ao relatar as palavras do anjo Gabriel, ou mesmo acreditar que ele escreveu corretamente, mas os copistas que multiplicaram seus escritos foi que erraram. Como a palavra “ventos” em hebraico é neutra, aceitar o pronome “deles” vinculada a ela não causaria nenhum problema de concordância gramatical.

 

Já o argumento nº.3 não é conclusivo e só tem algum peso se somado aos outros dois. Aliás, pelo que foi analisado, só o argumento nº.2 sobrevive por si mesmo, de forma que os outros dois funcionam como argumentos complementares de ênfase e/ou reforço, e na somatória dos três é que interpretação ganha força e é sustentada.

 

Sempre defendi com “unhas e dentes” (principalmente com base no argumento nº.2 acima) o surgimento do Chifre Pequeno como de um dos “quatro ventos” e nunca como de um dos “quatro chifres”. Acontece que este tipo de interpretação tem suscitado uma crítica muito coerente que deve ser levada seriamente em consideração:

 

Chifres na profecia bíblica nunca provêem de “ventos”! Chifres sempre são apresentados surgindo de algum tipo de animal ou de algum outro chifre! (Defender um chifre surgindo de um “vento” é o mesmo que defender o surgimento de um chifre do “nada”).

 

Na parte nº.1 destas “Respostas a Críticas e Objeções” usei para a objeção acima o seguinte argumento:

 

Se a estrutura gramatical dos escritos de Daniel sugere isto, por que questionar? Só porque nunca vimos nada parecido antes. Símbolos proféticos não necessitam obrigatoriamente seguir uma lógica humana. Alguém pode explicar um leão com 2 asas que depois se levanta como um homem? Ou um leopardo com 4 asas e 4 cabeças? Ou ainda um monstro de 10 chifres com unhas de bronze e dentes de ferro? Algum bode tem um chifre notável entre os olhos? Se todos estes símbolos são muito estranhos, porque então estranharíamos uma visão de um chifre surgindo e crescendo proveniente de um dos 4 cantos da terra?

 

Para muitos a dificuldade de aceitar tal interpretação persiste, pois não encontram uma razão plausível para Deus usar uma simbologia tão estranha como esta (mesmo levando em consideração todos os outros símbolos bem estranhos). Eles continuam questionando: “Se o Chifre Pequeno representa um outro poder totalmente independente dos quatro chifres (como defendem os adventistas), por que Deus não o representou como um outro animal assim como o fez na simbologia da visão do capítulo 7? Por que simboliza-lo a um Chifre Pequeno vindo do vento?”

 

No meu entender todas estas questões podem ser respondidas quando passamos a considerar a preocupação de Deus em caracterizar o quarto reino de uma maneira sobrenatural; como no capítulo 7 com o animal terrível e espantoso com 10 chifres, unhas de bronze e dentes de ferro. No meu entender este animal é tão estranho e admirável como um Chifre Pequeno que surge e cresce por si só de um dos quatro ventos do céu. Ambas as simbologias sobressaem como elementos totalmente sobrenaturais e sem qualquer comparação no mundo em que vivemos.

 

Em resumo, temos até agora duas alternativas de interpretação para o surgimento do Chifre Pequeno de Daniel 8:

 

1ª) Interpreta-lo como surgindo de um dos “quatro ventos” e em conseqüência desta interpretação poder manter o paralelismo entre as visões dos capítulos 2 e 7, identificando este poder como o império romano.

 

2ª) Interpreta-lo como surgindo de um dos “quatro chifres” e ter que admitir que o Chifre Pequeno é um símbolo para o rei Antíoco Epifânio.

 

O grande problema com a 2ª interpretação está na conseqüência a que ela leva, ou seja, interpretar o Chifre Pequeno como símbolo para o insignificante rei Antíoco Epifânio ou Antíoco IV. Especialmente porque Dan. 8:23 fala que este poder representado pelo Chifre Pequeno surgiria "no fim do seu reinado", referindo-se ao reinado dos quatro reinos divididos representados pelos quatro chifres. Esta informação bíblica inviabiliza a identificação do Chifre Pequeno como sendo o rei Antíoco Epifânio que foi o oitavo rei da dinastia selêucida (175 a 164 a.C.) proveniente de uma das 4 divisões do império macedônico (General Seleuco). A história mostra que seu reinado não surgiu no fim das quatro divisões do império alexandrino, nem tão pouco no fim dos reis selêucidas, pois ele está aproximadamente no meio da dinastia mencionada (A dinastia dos selêucidas governou de 312/311 a.C. até 65 a.C.).

 

Acontece que recentemente fiquei sabendo que estas não são as únicas duas alternativas de solução. Existe uma terceira que passo agora a considerar.

 

3ª ALTERNATIVA DE SOLUÇÃO

 

O Chifre Pequeno surgindo de um dos “quatro chifres” como um símbolo do surgimento do império romano, e não de Antíoco Epifânio.

 

Mas onde está a base para esta interpretação?

 

Existe algum elemento na história que a justifique?

 

Analise os textos a seguir:

 

“O problema da sucessão de Alexandre arrastou o país a novas guerras. Por fim, impuseram-se os Antigônidas na Macedônia, a Monarquia Selêucida no Oriente e a Ptolomaica no Egito. Com isso, o império dividiu-se definitivamente, embora os anseios de liberdade dos gregos os levassem ainda a novas guerras e coligações, de êxito esporádico, até a intervenção final e a ocupação do território pelos romanos. As primeiras relações dos romanos com as cidades gregas haviam sido amistosas. Todavia, quando em 215 a.C. Felipe V da Macedônia aliou-se ao cartaginês Aníbal, Roma resolveu intervir militarmente e obteve a vitória contra os macedônios em Cinoscéfalas, no ano 197 a.C. Seguindo uma política de prudência, Roma respeitou o reino macedônio e devolveu a autonomia às cidades gregas. A partir de 146 a.C., porém, a Grécia ficou submetida definitivamente ao domínio da República Romana, embora tenha continuado a manter a primazia espiritual sobre o mundo antigo.”

(fonte: http://www.nomismatike.hpg.ig.com.br/Grecia/GreAntig.html)

 

A ciência grega foi difundida pela expansão militar do Império de Alexandre, que encontrou uma continuidade, de modos diversos, em muitas das regiões conquistadas, a cultura helenística, particularmente em Alexandria. O idioma grego conheceu durante este período grande prestígio como língua culta do Mediterrâneo. Houve pensadores das civilizações egípcia e babilônica que escreveram obras em grego, vertendo para esta língua conhecimentos de suas próprias culturas. Também no Império Romano, o grego foi durante certo tempo a língua culta, na qual foram escritas, por exemplo, importantes obras literárias, historiográficas e filosóficas, como ``As Meditações'' do imperador Marco Aurélio (121-180 d.C.). ... Não encontramos em Roma a sofisticação do pensamento científico abstrato grego e helenístico. A grande maioria dos textos latinos de natureza científica foram essencialmente compilações de informações de textos mais antigos. ... No campo das ciências naturais, Lucrécio (99-55 a.C.), escreveu uma obra brilhante sobre a natureza no século I a.C., o De Rerum Natura que é essencialmente uma compilação do atomismo grego, essencial para nosso conhecimento atual desta doutrina. ... O arquiteto e engenheiro militar Vitrúvio (século I a. C.) escreveu extensa obra a respeito da ciência da construção, o De Architectura, que teve importante penetração no Renascimento, servindo de ponte para a interpretação da arquitetura clássica. Embora tenha agregado considerável conhecimento prático, é duvidoso que tenha compreendido completamente suas principais fontes conceituais, de origem grega.”

(fonte: http://plato.if.usp.br/1-2003/fmt0405d/apostila/mediev11/node2.html)

 

Como podemos verificar nos textos acima, de certa forma os historiadores afirmam que o império romano foi uma extensão da cultura (idioma, arte, filosofia) desenvolvida no império grego-macedônico. E desta forma, poderíamos até arriscar em afirmar que neste sentido o Chifre Pequeno surgiria como procedendo de um dos “quatro chifres”. Esta procedência não seria no sentido geográfico ou político, mas no sentido cultural, referindo-se a um poder que teria grande parte de sua cultura advinda do império que o antecedeu (helenista).

 

É claro que este tipo de interpretação cria alguns problemas difíceis de solucionar:

 

1)              Se a procedência é no sentido da identificação cultural absorvida pelo império romano em relação ao império grego-macedônico, temos uma aplicação do surgimento do Chifre Pequeno diferenciada da aplicação dos demais chifres na profecia (todos indicando procedência geográfica e política);

2)              A profecia fala explicitamente: “de um deles”. Se a procedência é cultural em relação a todo o império helenista, porque foi mencionado que o Chifre Pequeno procederia de uma das partes do império?

3)              A quais dos quatro chifres do bode identificaríamos como cumprindo a profecia “de um deles”?

a)              Lissímaco que ficou com a Trácia e maior parte da Ásia e cujo reinado terminou em 281 a.C.;

b)              Cassandro que ficou com a Macedônia e a Grécia e cujo reinado terminou em 168 a.C.;

c)               Seleuco que ficou com o restante da Ásia (Síria) e cujos reis que o precederam governaram até 65 a.C.;

d)              Ptolomeu que ficou com o Egito, Cirenaica, Palestina e que teve sua dinastia perpetuada até o ano de 30 a.C..

 

Alguns adventistas utilizam esta alternativa de solução por acharem que o vínculo entre a expressão “deles” e os quatro chifres é irrefutável. Particularmente, não creio desta maneira, pois considero a questão gramatical envolvida muito mais forte que a estranheza de um chifre originando-se de um dos quatro ventos.

 

Porém, o mais importante de tudo é que, com 3ª alternativa de solução, quer você aceite que o Chifre Pequeno se originou dos quatro ventos, quer entenda que foi de um dos quatro chifres, o resultado será um só; a identificação do Chifre Pequeno como o império romano. Os evangélicos que insistem em Antíoco Epifânio é que não irão gostar muito desta maneira de interpretar.

 

 

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